A autocrítica de Jorge Wilheim

O texto a seguir publicado no Blog http://www.jorgewilheim.com.br/legado/Post/visualizar/12#.VP8amKANoV4.facebook
Registra com grande sensibilidade e precisão as últimas reflexões do nosso querido Mestre Jorge Wilheim

Por Julio Moreno*

O computador do arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, recém falecido, guarda um precioso conteúdo: o texto, talvez incompleto, de seu novo livro. Tema: a cidade do novo milênio. “Meu interesse maior no momento é o livro”, ele foi logo me avisando quando estive em seu escritório em fins de outubro de 2013. Eu pedira uma entrevista, para a revista “Projeto”, sobre o novo Plano Diretor proposto pela Prefeitura para a Câmara. Apesar de não se negar a discutir o tema comigo, Wilheim não queria entrar em polêmicas. “Eu estou um passo além, não estou falando mais em metrópoles, mas em metápolis, que são as regiões urbanizadas”.

Não estranhei. A contribuição intelectual de Jorge Wilheim não se limita à vasta e rica produção como arquiteto, urbanista e homem público. Era um pensador irrequieto ou, como preferia dizer, um sujeito convicto de que a essência da vida é aprender. No seu caso, também refletir, compartilhar, debater e ensinar.

Em seus livros, artigos e palestras, a questão da cidade está sempre inserida no contexto maior do momento. Levando em conta a espiral da história, ele acreditava que as instabilidades, incertezas e insegurança causadas pelas alterações estruturais em curso podem nos conduzir não ao caos, mas a um novo Renascimento. “O novo humanismo do século XXI cristalizaria alguns valores hoje em gestação, e nele ficaria mais clara a noção de cidadania e dos direitos humanos”.

Na visão de Jorge Wilheim, o novo Plano Diretor proposto para São Paulo é, no geral, bom, mas carece de “uma versão compreensível e mobilizadora”, com explicações claras do que se pretende fazer com a cidade. “É certo que tivemos as audiências públicas, como pede o Estatuto da Cidade, mas elas representaram um esforço muito grande frente aos resultados obtidos”. O arquiteto trataria disso no ”pequeno livro sobre o significado contemporâneo do urbanismo”.

De uma certa forma, ele próprio ressaltava, será uma autocrítica. Wilheim se dizia atormentado nos últimos tempos com dois tipos de ações urbanas cujos conceitos deveriam ser reformulados: um é o Plano Diretor, outro o EIA RIMA – conjunto dos estudos e relatórios de impacto ambiental. “Em ambas as coisas conseguimos avanços consideráveis, fomos pioneiros, mas fomos também capazes de criar um novelo, um emaranhado de ações que amarram nossos pés e mãos, tirando a clareza do que queremos fazer. Ou seja, preparar a cidade do futuro, melhorando seu presente, e na parte ambiental criar a sustentabilidade ambiental”.

Ele, que foi um dos formuladores do conceito de Plano Diretor no País, a partir do plano de Curitiba, julgava que o modelo se esgotara, transformando-se numa legislação de “leitura absolutamente insossa, que não permite visualizar qual é a intenção do urbanista”. Em seu livro, ele defende a separação da legislação do Plano Diretor da lei do uso e ocupação do solo. A lei do solo é necessária para dar garantia jurídica à propriedade, pública ou privada. Não pode haver dúvida sobre o que se permite construir ou não. Isso se faz por lei. Quanto ao desenvolvimento da cidade começo a duvidar se a coisa mais mobilizadora é um texto de lei e se deve ser formulado dessa forma”.

Seu envolvimento no setor ambiental vinha desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, ação pioneira da ONU sobre as relações do homem com o meio ambiente. “E sempre colocando a sustentabilidade como adjetivo de desenvolvimento. O adjetivo passou a ser substantivo. E agora virou moda, tem gente que usa e nem sabe do que está falando”. Segundo ele, hoje há um excesso de normas e ações no setor. São exigidos pareceres ambientais para Municípios, Estados e União. “Temos os estudos de impacto ambiental, de avaliação ambiental, de impacto de vizinhança… Não está claro quando se aplica um ou outro. Além de documentos diversos, temos momentos diversos e não está claro quando se aplica. Numa obra grande até o canteiro de obras necessita estudo de impacto. Depois existe uma aprovação de início de obras e do término da obra. Conseguimos criar um emaranhado não só inútil e desgastante, além de mal formulado, que só aumenta o “custo Brasil”. Sem contar que o Ministério Público pode interferir no processo a qualquer momento.

Nesse contexto, Jorge Wilheim defende “simplificar e voltar a ter bom senso”. Pois há desafios maiores vindo por ai, que devem merecer mais atenção, como as metápolis, classificação dada pela agência Habitat da ONU – cuja conferência mundial de 1996 ele ajudou a organizar – para as manchas urbanas que unem metrópoles e cidades médias. Uma fusão veloz e não necessariamente territorial, mas que se dá mais por conta da interdependência, marcados por enormes tráfegos físico e digital. É o caso da relação da Grande São Paulo com São José dos Campos, a Baixada Santista e as regiões de Campinas, Jundiaí e Sorocaba. O resto de seu pensamento está guardado na memória de seu computador. Esperemos que a família o recupere e publique essa última reflexão do grande urbanista.

*Julio Moreno é jornalista e assessor chefe de comunicação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU). Acompanhou a trajetória de Jorge Wilheim na condição de jornalista da área de cidades desde a década de 1970.

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