A BILLINGS E SUAS CONDIÇÕES DE QUALIDADE AMBIENTAL Eng. Rubens Monteiro de Abreu

O que me moveu a escrever este artigo foi a reportagem apresentada em O Globo Repórter retratando as condições da represa Billings. Explicar e divulgar a realidade da represa hoje como já fiz no passado, quando trabalhava na CETESB, tem sido a minha luta. Meus dois artigos mais recentes tratam do desleixo com a limpeza dos rios Tietê/Pinheiros, bem como, das condições da represa.
Em razão da descomunal seca que afeta o Sudeste a mídia tem feito uma cobertura intensiva sobre este assunto. O risco de esgotamento do Sistema Cantareira é o grande problema a ser resolvido. Então o uso da Billings, com 1,2 bilhão de m3 , tem sido aventado como uma alternativa no sentido de ajudar a abastecer a Grande São Paulo.
A mencionada reportagem mostra a condição precária em que se encontra a represa quanto à presença exacerbada de algas. É lamentável, não ter havido até agora um diagnóstico preciso do que acontece com essa represa.
Realmente, a simples observação de boa parte de sua área superficial, onde a água se apresenta como um caldo verde e nas partes mais rasas uma crosta repulsiva, cria no espectador uma impressão bastante desagradável. Mesmo pessoas de bom conhecimento tende a estender o diagnóstico a outros tipos de poluição, como a de metais pesados.
Assim, o que acontece na represa é o que se designa como eutrofização, ou seja, excesso de nutrientes, particularmente o fósforo. Muito estudo tem sido feito sobre esse tema em todo o mundo, principalmente na Europa. Claro que a situação não é nada satisfatória mas é algo que sucede, em menor ou maior intensidade, em todos os reservatórios. A própria eutrofização de Guarapiranga tem uma proporção que dificulta o tratamento feito pela SABESP.
A reportagem aponta, também, para a grande ocupação urbana nas áreas próximas da represa e a decorrente presença de lixo. Detectou, também uma quantidade de pessoas marcando lotes na área inundável, ou seja, onde a água chegará ao aumentar seu volume. Tudo isso resulta da falta de gerenciamento de áreas de proteção de mananciais e da exagerada aproximação do corpo de água. A história da Billings é exemplo de contradições nas tomadas de decisão quanto ao seu planejamento.
A história começa com a construção dos reservatórios Guarapiranga e Billings para geração de energia elétrica, primeiro em Santana do Parnaíba e depois em Cubatão na baixada santista. O crescimento das cidades da região levou a um novo uso as águas do Guarapiranga, agora como manancial. Até porque, esse uso não impedia continuar utilizando também para energia elétrica, já que a água captada nessa represa podia retornar ao Tietê/Pinheiros depois do seu uso, agora como esgoto. Inicialmente a energia de 440 MW suportava a crescente demanda. Por volta de 1950, uma usina subterrânea dobrou a capacidade para 880 MW e a Billings continuou como lagoa de estabilização para os esgotos de São Paulo e região, com uma eficiência de redução de poluentes orgânicos da ordem de 80%.
Aí aconteceu um verdadeiro drama, isso é, a disputa entre dois planos de tratamento e disposição dos esgotos metropolitanos: Solução Integrada (1971) e Sanegran (1980). Aliás, em 1968, um escritório técnico americano formulou um plano para centralizar todos os esgotos na região da Billings e daí para o mar. Este fato induziu o pessoal da Solução Integrada a propor a centralização dos esgotos no Baixo Juqueri e Pirapora. O inicio da implantação dessa solução inviabilizou uma solução mais descentralizada. Posteriormente, o plano mudou para uma grande ETE de lodos ativados em Barueri, na margem do Tietê.
Esta situação gerou uma dúvida no pessoal da região ABC que passou a lutar pela limpeza da Billlings através do impedimento da reversão do Tietê/Pinheiros. Conseguiram introduzi-la na Constituição Estadual de 1989. Antes disso, por volta de 1985 buscou-se uma experiência cortando a reversão, por interferência do Eng. Werner Zulauf, então Presidente da CETESB. Isto durou seis meses e devido a reclamações de jusante (espumas em Pirapora) e problemas de energia elétrica, a reversão voltou em 50 % para cada lado. Relembro este fato, porque em 6 meses a represa ficou praticamente limpa. E não deu outra: uma exacerbada floração de algas, como antevisão do que acontece hoje.
A partir de 1992, entrou definitivamente em ação o corte da reversão, com exceção de quando chove muito na bacia do Pinheiros. O bombeamento dessa água é feito, em tese, para evitar alagamentos.
A verdade é que essa atitude resultou em outro tipo de poluição, ou seja, a eutrofização. As águas da Billings agora, sem a cor negra da anaerobiose, deixaram de inibir a floração desenfreada das algas. A questão não é discutir se é melhor a poluição ou a eutrofização. O melhor será conseguir que os dois estados desapareçam mediante o tratamento efetivo dos esgotos, inclusive com a remoção de nutrientes.
Voltando à reportagem, além da referência a metais pesados e alta contagem de coliformes foi procedida a medição de OD (oxigênio dissolvido) em alguns pontos. Se não me engano, em ponto distante de Pedreira a medida foi 7,8 mg/L. Em pontos mais próximos as medidas foram 2,5 e 1,5 mg/L.
Da tabela mais completa inserida em artigo anterior, transcrevo alguns dados que permitem uma apreciação mais simples. Uma comparação entre Billings, Guarapiranga e Baixo Cotia está na tabela seguinte:
Tabela 1-Qualidade de Mananciais

 

Tabela 1-Qualidade de Mananciais

Qualidade Comparada

Parâmetros

Billings

Pedreira

Billings

Saída

Guarapiranga

Captação

Baixo Cotia Padrão

 

Metais Pesados    valores equivalentes todos
Nitrato                  mg/L 0,37 0,2 0,71 0,24 <10
Fósforo                 mg/L 0,33 0,036 0,036 0,49 <0,03
Clorofila-a           mcg/L 209 44 44 1,9 <30
Escherichia coli UFC/100 mL

OD                         mg/L

DBO                      mg/L

840

2,6

15

4

7,8

4

16

7,7

5

170000

5

12

 

<600

>5

<5

Fonte CETESB 2013

 

A Tabela 1 elucida o panorama da qualidade das águas da Billings e de dois outros mananciais. O nitrato e o fósforo são os nutrientes (causa) e a clorofila-a (efeito) mede o grau de eutrofização. Já os três últimos medem o grau da poluição, ou seja, escherichia e DBO são causas, enquanto o OD é um dos efeitos. A DBO (demanda bioquímica de oxigênio) representa a quantidade de matéria orgânica presente na água, ou melhor, a quantidade de oxigênio que será consumida pelas bactérias aeróbicas para oxidá-la, em cada litro de água analisada. Já excherichia (coliforme)representa o risco de se ter algum micróbio patogênico presente na água devido a fezes. Esta tabela mostra que, na verdade, eutrofização é um caso muito particular de poluição que afeta os reservatórios.
Mas, alguém haverá de perguntar: e os metais pesados do sedimento (lodo)?
A CETESB tem feito muitos estudos a respeito disso e sabe, por exemplo, que em torno de 90% do lodo da Billings está no 1º compartimento, entre Pedreira e Rodovia dos Imigrantes. Um estudo feito em 1985 permitiu-me comparar valores no tempo, relativos a metais pesados no sedimento do 1º compartimento. A Tabela 2 apresenta os resultados e a comparação com Guarapiranga.

Tabela 2-Metais Pesados no Lodo da Billings e Guarapiranga

Parâmetros                                    Bill 1985                Bill 2013        Guara 2013

Zinco                mg/kg secos                        400 ruim                          238   reg           160   boa

Niquel                      “                                        43 ruim                         47,9 ruim        27,5 reg

Cromo                      “                                      109 ruim                         216   pess         64,4 reg

Chumbo                  “                                       71 reg                                53,2 boa          62,8 reg

Cadmio                    “                                     0,78 boa                           1,68 boa          0,92 boa

Mercúrio                 “                                        2   pess                        0,878 pess      0,143 boa

Fonte CETESB

 

Conforme se observa pela Tabela 2, vinte anos sem o bombeamento do Tietê não produziu melhora nas condições do sedimento da Billings. Isto era de se esperar porque, se o lodo não é revolvido, a sua condição permanecerá praticamente estável. O sedimento conta a história da sua vida, e a Billings, mesmo tendo sofrido enorme grau de poluição, ainda assim, no tocante a metais pesados, não se apresenta tão diferente, quando seus valores são comparados com os presentes no sedimento de Guarapiranga.
Esta constatação corrobora a minha constante afirmação de que as águas da Billings nunca apresentaram concentrações fora dos padrões de metais pesados. A razão disto é que as águas do Tiete/Pinheiros nunca tiveram concentrações significativas desses poluentes.
Este artigo complementa os dois anteriores: “E Por Falar em Sabesp” e “Reuso da Billings como Manancial”. Espero desvendar o que se trata de poluição e sensibilizar a todos pela recuperação dos rios Tietê e Pinheiros. Mas não só do Pinheiros, como querem alguns.

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