Reuso da Billings como Manancial por Rubens Monteiro de Abreu: Excelente reflexão sobre o potencial de uso da Billings, uma boa saída para a crise de água e a recuperação de um ótimo ativo ambiental.

REUSO  DA  BILLINGS  COMO  MANANCIAL

Fazia tempo que o paulistano não se queixava de falta d’água. Desde que terminou a construção do Sistema Cantareira, em meados da década de 70, começou a sobrar água na Grande São Paulo. Naquela época, a SABESP, então criada, chegou a fazer propaganda para que a população consumisse a água que estava sobrando e que seria perdida.

Trinta metros cúbicos por segundo passaram a ser revertidos de águas represadas no Alto Piracicaba, para a Capital. Alguém poderia contestar essa obra vez que havia, ainda, as Cabeceiras do Tietê para serem exploradas. Foi a visão de estadista do Eng. Eduardo Riomey Yassuda que optou por deixar para depois a exploração dessas nascentes. Se o estupendo Sistema de Águas fosse postergado, ele sabia que, no futuro, tal transposição teria muita dificuldade de aprovação. Assim, a SABESP  teve 40 anos de tranquila cobertura da demanda de água na região.

O que não se previu foi a seca descomunal que assola o Sudeste e a fragilidade do Sistema.

Cidades americanas que convivem com fortes estiagens possuem o chamado Plano de Contingência para  Ações durante Secas. A fórmula é simples: à medida que os níveis de água nos reservatórios vão reduzindo, estágios vão sendo monitorados, geralmente três, de modo a deflagrar restrição ao uso da água cada vez maior. Isto deve constar de regulamentos, ou mesmo, leis.  Aqui, o inusitado da situação e a proximidade das eleições fizeram com que se desconsiderassem advertências e confiassem só na suficiência do bônus em dinheiro por economia de água.

Agora, seguindo o planejamento do Convênio Hibrace (1970) que estudou diversos mananciais utilizáveis em abastecimento de água para a região, só resta o Juquiá. O Paraíba, rio federal que abastece o Rio de Janeiro era inviável. O Alto Juquiá com vazão disponível de 19 m3/s é a obra em andamento com recalque de 120 m.  O Rio Juquiá com recalque de 700 m e uma produção de 69 m3/s (Plano SANESP) é a proposta de ampliação da oferta d’água, cujo custo corresponde ao de uma Hidrelétrica de Cubatão às avessas.

Portanto, já não é sem tempo considerar a Billings como manancial.

Há 25 anos, consegui inserir na revista Ambiente publicada, então, pela CETESB o artigo “Estratégia para despoluir a água da Billings” ( Vol.4 n.1 1990). Esta revista é acessível no Site da Companhia  em Publicações e Relatórios. A estratégia consistia em usar a limpeza do Tietê/Pinheiros como fator de pressão para despoluir a represa, acenando com a possibilidade de usá-la como manancial. Eu fui contra inutilizar a hidrelétrica, porque a poluição da represa era um estigma a pressionar a despoluição dos rios que a alimentavam. Perdi e a represa ficou limpinha à custa da energia de Cubatão. Hoje, a limpeza desses rios só será possível se nossos governantes tiverem a determinação política de um Yassuda  e enxergarem o benefício que teremos com as possibilidades de apreciar a beleza de barcos navegando pelo Tietê/Pinheiros, a oferta d’água de 30 m3/s  e a energia de 880 MW para suprir as demandas de pico.

Esta tese defendi, também, com minha equipe, no trabalho apresentado ao II Concurso das Águas patrocinado pela Prefeitura de São Paulo (Luiza Erundina), pelo Consórcio Intermunicipal do  Alto Tamanduateí Billings (Celso Daniel) e coordenado pela SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (Enio Candotti). Os três primeiros trabalhos foram publicados pela SBPC e conseguimos o segundo lugar.

Nesta seca, como solução de emergência, tentei publicar no Estadão (Fórum de Leitores) uma nota sugerindo usar água da Billings, até 15 m3/s. Para isso seria necessária a ampliação da ETA (estação de tratamento de água) do Rio Grande que por sinal está prevista para aproveitamento do Rio Pequeno, paralelo ao Rio Grande. Não tive sucesso.

Estava neste ponto do artigo, quando caiu-me em mãos reportagem da Folha de São Paulo (19-01-15) sob o título “Medidas de curto prazo podem ajudar conter crise de Água em São Paulo”. A convite do Governo do Estado, esteve aqui em dezembro, a Dra. Neusha Ajami pesquisadora da Universidade de Stanford e Diretora do Programa de Água do Oeste dos EUA. Na entrevista para a Folha ela teceu considerações sobre a situação atual. Falou em consertar vazamentos, multa por excesso de consumo e reuso de águas pluviais. Destaco a resposta à primeira pergunta do repórter:

“ Eu sabia dos problemas, mas quando cheguei a São Paulo me surpreendi ao descobrir que há um rio correndo no meio da cidade; ele é bastante contaminado, claro, mas é impressionante saber que, no meio de uma seca, ninguém tenha levado em consideração usar essa água, des- contaminá-la”

Oxalá essa pesquisadora consiga convencer  as nossas autoridades.

Em 2012, o Projeto Tietê que pretendia solucionar o problema dos esgotos e recuperar a saúde do Tietê/Pinheiros fez 20 anos. Como não se via melhorias, resolvi  consultar os dados de qualidade de água em pontos do Alto e Médio Tietê coletados e publicados pela CETESB nos relatórios de 1992 e 2012. Em uma tabela, comparados os resultados, ficou claro que, praticamente, não houve melhoria. Escrevi um artigo analisando a situação e reafirmando a minha tese. A SABESP informou que havia gasto R$3,2 bilhões e, cobrada pelas melhorias que não são vistas, partiu para explicações sem cabimento. Eu afirmo que foi por dinheiro insuficiente ou incompetência. Tóquio resolveu esse problema em 20 anos.

Como sempre, todo mundo acha que a Billings está muito poluída por carga orgânica e metais pesados. Eu sempre insisto que desde a não reversão do Tietê para esta represa, em 1992, ela pode ser considerada limpa. Quanto aos metais pesados afirmo, com dados da CETESB, que nunca houve problemas com esses poluentes. Não consigo eliminar este estigma da represa. A represa foi, não é mais, uma grande lagoa de estabilização, ou seja, fazia o tratamento dos esgotos da Grande São Paulo, mesmo depois das 5 estações de lodos ativados que não conseguem dar conta do recado. Aliás, a sugestão da pesquisadora de usar água pluvial, para nós não tem sentido porque essa rede leva para os rios uma grande carga de lixo e esgotos clandestinos. Assim insisto, uma vez mais, que os principais afluentes do Tietê/Pinheiros, a começar pelo Tamanduateí, terão que receber tratamento na foz.

Agora, para mostrar o que informam os dados da CETESB, organizei  a Tabela 1, apresentada em seguida, comparando a água de alguns mananciais da região com a de três pontos na Billings mais o Canal de Fuga.

Antes disso, uma foto de primeira página do Estadão de hoje, 24/01/2015.

Refrescando  na  Billings

Estou tentando mostrar dados que comprovam a qualidade da água da represa e nada é melhor e mais contundente do que gente nadando com toda tranquilidade nessas águas.  Até hoje, somente tenho visto reportagens falando mal  e gente reclamando de mau cheiro e lixo. Alga e lixo se avolumam nas bordas. Mau cheiro é decorrente de algas que apodrecem. Lixo é coisa que os ribeirinhos poderiam evitar. Excesso  de Algas é fruto do excesso de nutrientes que deveria ser evitado através de remoção nas estações de tratamento de esgotos (ETE). Até porque, a presença de algas dificulta o tratamento de água para abastecimento (ETA).

Voltemos, então, para Tabela 1 que é um argumento  técnico e, claro, difícil para o leigo analisar. Com atenção e paciência dá para perceber o significado dos parâmetros e padrões de qualidade de águas. A apreciação desta tabela é similar à que se faz quando se lê o laudo de um exame de laboratório pedido pelo médico. Aliás, nos EUA uma categoria profissional que exerce essa função estuda Engenharia de Saúde Ambiental. Quando se lê o resultado de um  laudo, cada valor medido aparece confrontado com valores de referência os quais para o ambiente são os padrões de qualidade. O significado nem sempre é entendido, mas o paciente tem Ideia do andamento de sua saúde.

Os dados da Tabela 1 foram obtidos em Relatório de Qualidade das Águas Interiores do Estado de São Paulo de 2013 disponível  no site da CETESB. A rede de monitoramento, com o tempo, foi aumentada em número de pontos de amostragem e parâmetros medidos. Vale observar que nem todos os parâmetros possuem  padrões e varia, também, a quantidade de parâmetros levantados em cada ponto.

Selecionamos  então, uma série de parâmetros suficientes para este trabalho. Os parâmetros não apresentados não mostraram divergência  com os respectivos padrões ou não foram levantados.

Tabela 1

Assim, pode-se observar que em relação aos metais pesados não há diferenças nem valores fora dos padrões. Como curiosidade cito o cobre total na captação de Guarapiranga (0,03 mg/L).  A razão é alga (clorofila a) que é removida com sulfato de cobre.

O grande vilão da Billings foi a  poluição orgânica que é medida pela DBO-Demanda Bioquímica de Oxigênio e está diretamente relacionada com o OD-Oxigênio Dissolvido. O teor de OD em água limpa é normalmente 9 mg/L.  A DBO é calculada mediante ensaio de laboratório que avalia a quantidade de oxigênio necessária para oxidar a  matéria orgânica presente em cada litro da água poluída. Assim, os respectivos padrões de 5 mg/L para Classe 2, significa que para se manter o rio com um mínimo de OD correspondente ao seu padrão deve ser mantido no máximo o padrão da DBO. O ensaio é realizado na temperatura de 20 graus centígrados no tempo de 5 dias.  A DBO acima de 20 mg/L  zera o OD, então entra em ação bactérias anaeróbias que não usam OD e, se não houver nova carga orgânica, a DBO vai caindo até esse valor, quando recomeça a presença de OD e das bactérias aeróbias. É por isso que o Tietê vai melhorando rio abaixo.  O pior rio de São Paulo é o Tamanduateí  que apresenta uma DBO acima de 100 mg/L . No esgoto é da ordem de 250 mg/L.

De um modo geral, o pior parâmetro encontradiço em reservatórios é o nutriente Fósforo, responsável principal pela sua eutrofização, ou seja , produção de algas.

Cumpre atentar para os dois índices IQA e IAP. O primeiro é uma nota de 0 a 100 calculado por uma média ponderada de 9 macropoluentes e não leva em consideração metais pesado. É interessante porque permite uma visão geral do nível de poluição de um corpo d’água. O IAP, por sua vez, é mais novo e é calculado com parâmetros  mais indicados para avaliar uma qualidade de água destinada  a ETAs. O cálculo parte do IQA e corrige com alguns parâmetros mais sensíveis, como alguns Metais Pesados e Cianobactéria . As faixas de notas permitem definir a qualidade como Ótima, Boa, Regular, Ruim e Péssima. Portanto, o campeão de nota baixa é o Baixo Cotia.

Resta abordar os parâmetros microbiológicos e eco -toxicológicos.

No caso da Ceriodaphnia dúbia,  este microcrustáceo é usado para avaliar o indicador Ecotox em  ensaio de laboratório que verificar sua saúde em água pesquisada e água limpa, em intervalos de tempo. Conta-se então a porcentagem de mortos e/ou com dificuldade de reprodução. Coforme o resultado definem-se três níveis: NT- não tóxico, TC-toxicidade crônica e TA-toxicidade aguda. A Tabela 1 não apresenta TA, apenas NT e TC. Claro que o ideal é NT, mas o TC-crônico é aceito como padrão de Classe 3 e não invalida o IAP.

O parâmetro microbiológico avaliado pela Escherichia coli, que é natural no intestino, apenas alerta para a presença de esgoto na água amostrada. Exige mais cuidado no tratamento da ETA.  O IAP péssimo no Baixo Cotia não tem causa no Ecotox nem na Cianobactéria, é certamente pela Escherichia.

Quanto à   Cianobactéria , ela é um dos parâmetros que rebaixa a nota do IAP como se vê na captação de Guarapiranga  e do Rio Grande. Ela aparece em companhia de algas em reservatórios muito eutrofizados. Tais bactérias podem produzir certos tipos de toxinas que são removidas nas ETAs.

O leitor pode, então,  tirar conclusões e formar uma opinião a respeito da minha proposta.

Demorou, mas já há notícia de que o Governador e a SABESP pensam em aproveitar água da Billings para abastecer  o quase seco Taiaçupeba nas cabeceiras do Tietê. Faz sentido, porque pode ser mais rápido construir uma adutora para levá-la até lá, do que ampliar a ETA do Rio Grande.

Minha grande esperança é que a severa situação que São Paulo está vivendo sirva para uma tomada de decisão que resulte efetivamente na recuperação dos nossos rios.

Eng. Rubens Monteiro de Abreu                                                                                                       Mestre em  Engenharia  de Saúde Ambiental  pela Universidade do Texas, EUA.

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3 comentários sobre “Reuso da Billings como Manancial por Rubens Monteiro de Abreu: Excelente reflexão sobre o potencial de uso da Billings, uma boa saída para a crise de água e a recuperação de um ótimo ativo ambiental.

  1. Olá! Gostaria de entrar em contato com o Eng. Rubens Monteiro de Abreu, seria possível disponibilizar o contato dele? Sou arquiteta e doutoranda — estudo o Canal do Pinheiros. Agradeço a sua atenção,
    Daniela

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