Compensação Ambiental para o Sistema Cantareira

Seria uma boa ação ambiental para recuperação do o Sistema Cantareira. Plantios na bacia: “Todas juntas, as iniciativas não chegam a 3,5 mi de árvores, se tudo der certo. É cerca de 10% do necessário para recuperar só áreas de preservação permanente, que, por lei, não deveriam ter sido desmatadas. Além disso, seria recomendável restaurar boa parte dos 66% desmatados nas bacias de captação”
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/02/1593862-principais-represas-do-cantareira-tem-devastacao-acima-da-media.shtml

A BILLINGS E SUAS CONDIÇÕES DE QUALIDADE AMBIENTAL Eng. Rubens Monteiro de Abreu

O que me moveu a escrever este artigo foi a reportagem apresentada em O Globo Repórter retratando as condições da represa Billings. Explicar e divulgar a realidade da represa hoje como já fiz no passado, quando trabalhava na CETESB, tem sido a minha luta. Meus dois artigos mais recentes tratam do desleixo com a limpeza dos rios Tietê/Pinheiros, bem como, das condições da represa.
Em razão da descomunal seca que afeta o Sudeste a mídia tem feito uma cobertura intensiva sobre este assunto. O risco de esgotamento do Sistema Cantareira é o grande problema a ser resolvido. Então o uso da Billings, com 1,2 bilhão de m3 , tem sido aventado como uma alternativa no sentido de ajudar a abastecer a Grande São Paulo.
A mencionada reportagem mostra a condição precária em que se encontra a represa quanto à presença exacerbada de algas. É lamentável, não ter havido até agora um diagnóstico preciso do que acontece com essa represa.
Realmente, a simples observação de boa parte de sua área superficial, onde a água se apresenta como um caldo verde e nas partes mais rasas uma crosta repulsiva, cria no espectador uma impressão bastante desagradável. Mesmo pessoas de bom conhecimento tende a estender o diagnóstico a outros tipos de poluição, como a de metais pesados.
Assim, o que acontece na represa é o que se designa como eutrofização, ou seja, excesso de nutrientes, particularmente o fósforo. Muito estudo tem sido feito sobre esse tema em todo o mundo, principalmente na Europa. Claro que a situação não é nada satisfatória mas é algo que sucede, em menor ou maior intensidade, em todos os reservatórios. A própria eutrofização de Guarapiranga tem uma proporção que dificulta o tratamento feito pela SABESP.
A reportagem aponta, também, para a grande ocupação urbana nas áreas próximas da represa e a decorrente presença de lixo. Detectou, também uma quantidade de pessoas marcando lotes na área inundável, ou seja, onde a água chegará ao aumentar seu volume. Tudo isso resulta da falta de gerenciamento de áreas de proteção de mananciais e da exagerada aproximação do corpo de água. A história da Billings é exemplo de contradições nas tomadas de decisão quanto ao seu planejamento.
A história começa com a construção dos reservatórios Guarapiranga e Billings para geração de energia elétrica, primeiro em Santana do Parnaíba e depois em Cubatão na baixada santista. O crescimento das cidades da região levou a um novo uso as águas do Guarapiranga, agora como manancial. Até porque, esse uso não impedia continuar utilizando também para energia elétrica, já que a água captada nessa represa podia retornar ao Tietê/Pinheiros depois do seu uso, agora como esgoto. Inicialmente a energia de 440 MW suportava a crescente demanda. Por volta de 1950, uma usina subterrânea dobrou a capacidade para 880 MW e a Billings continuou como lagoa de estabilização para os esgotos de São Paulo e região, com uma eficiência de redução de poluentes orgânicos da ordem de 80%.
Aí aconteceu um verdadeiro drama, isso é, a disputa entre dois planos de tratamento e disposição dos esgotos metropolitanos: Solução Integrada (1971) e Sanegran (1980). Aliás, em 1968, um escritório técnico americano formulou um plano para centralizar todos os esgotos na região da Billings e daí para o mar. Este fato induziu o pessoal da Solução Integrada a propor a centralização dos esgotos no Baixo Juqueri e Pirapora. O inicio da implantação dessa solução inviabilizou uma solução mais descentralizada. Posteriormente, o plano mudou para uma grande ETE de lodos ativados em Barueri, na margem do Tietê.
Esta situação gerou uma dúvida no pessoal da região ABC que passou a lutar pela limpeza da Billlings através do impedimento da reversão do Tietê/Pinheiros. Conseguiram introduzi-la na Constituição Estadual de 1989. Antes disso, por volta de 1985 buscou-se uma experiência cortando a reversão, por interferência do Eng. Werner Zulauf, então Presidente da CETESB. Isto durou seis meses e devido a reclamações de jusante (espumas em Pirapora) e problemas de energia elétrica, a reversão voltou em 50 % para cada lado. Relembro este fato, porque em 6 meses a represa ficou praticamente limpa. E não deu outra: uma exacerbada floração de algas, como antevisão do que acontece hoje.
A partir de 1992, entrou definitivamente em ação o corte da reversão, com exceção de quando chove muito na bacia do Pinheiros. O bombeamento dessa água é feito, em tese, para evitar alagamentos.
A verdade é que essa atitude resultou em outro tipo de poluição, ou seja, a eutrofização. As águas da Billings agora, sem a cor negra da anaerobiose, deixaram de inibir a floração desenfreada das algas. A questão não é discutir se é melhor a poluição ou a eutrofização. O melhor será conseguir que os dois estados desapareçam mediante o tratamento efetivo dos esgotos, inclusive com a remoção de nutrientes.
Voltando à reportagem, além da referência a metais pesados e alta contagem de coliformes foi procedida a medição de OD (oxigênio dissolvido) em alguns pontos. Se não me engano, em ponto distante de Pedreira a medida foi 7,8 mg/L. Em pontos mais próximos as medidas foram 2,5 e 1,5 mg/L.
Da tabela mais completa inserida em artigo anterior, transcrevo alguns dados que permitem uma apreciação mais simples. Uma comparação entre Billings, Guarapiranga e Baixo Cotia está na tabela seguinte:
Tabela 1-Qualidade de Mananciais

 

Tabela 1-Qualidade de Mananciais

Qualidade Comparada

Parâmetros

Billings

Pedreira

Billings

Saída

Guarapiranga

Captação

Baixo Cotia Padrão

 

Metais Pesados    valores equivalentes todos
Nitrato                  mg/L 0,37 0,2 0,71 0,24 <10
Fósforo                 mg/L 0,33 0,036 0,036 0,49 <0,03
Clorofila-a           mcg/L 209 44 44 1,9 <30
Escherichia coli UFC/100 mL

OD                         mg/L

DBO                      mg/L

840

2,6

15

4

7,8

4

16

7,7

5

170000

5

12

 

<600

>5

<5

Fonte CETESB 2013

 

A Tabela 1 elucida o panorama da qualidade das águas da Billings e de dois outros mananciais. O nitrato e o fósforo são os nutrientes (causa) e a clorofila-a (efeito) mede o grau de eutrofização. Já os três últimos medem o grau da poluição, ou seja, escherichia e DBO são causas, enquanto o OD é um dos efeitos. A DBO (demanda bioquímica de oxigênio) representa a quantidade de matéria orgânica presente na água, ou melhor, a quantidade de oxigênio que será consumida pelas bactérias aeróbicas para oxidá-la, em cada litro de água analisada. Já excherichia (coliforme)representa o risco de se ter algum micróbio patogênico presente na água devido a fezes. Esta tabela mostra que, na verdade, eutrofização é um caso muito particular de poluição que afeta os reservatórios.
Mas, alguém haverá de perguntar: e os metais pesados do sedimento (lodo)?
A CETESB tem feito muitos estudos a respeito disso e sabe, por exemplo, que em torno de 90% do lodo da Billings está no 1º compartimento, entre Pedreira e Rodovia dos Imigrantes. Um estudo feito em 1985 permitiu-me comparar valores no tempo, relativos a metais pesados no sedimento do 1º compartimento. A Tabela 2 apresenta os resultados e a comparação com Guarapiranga.

Tabela 2-Metais Pesados no Lodo da Billings e Guarapiranga

Parâmetros                                    Bill 1985                Bill 2013        Guara 2013

Zinco                mg/kg secos                        400 ruim                          238   reg           160   boa

Niquel                      “                                        43 ruim                         47,9 ruim        27,5 reg

Cromo                      “                                      109 ruim                         216   pess         64,4 reg

Chumbo                  “                                       71 reg                                53,2 boa          62,8 reg

Cadmio                    “                                     0,78 boa                           1,68 boa          0,92 boa

Mercúrio                 “                                        2   pess                        0,878 pess      0,143 boa

Fonte CETESB

 

Conforme se observa pela Tabela 2, vinte anos sem o bombeamento do Tietê não produziu melhora nas condições do sedimento da Billings. Isto era de se esperar porque, se o lodo não é revolvido, a sua condição permanecerá praticamente estável. O sedimento conta a história da sua vida, e a Billings, mesmo tendo sofrido enorme grau de poluição, ainda assim, no tocante a metais pesados, não se apresenta tão diferente, quando seus valores são comparados com os presentes no sedimento de Guarapiranga.
Esta constatação corrobora a minha constante afirmação de que as águas da Billings nunca apresentaram concentrações fora dos padrões de metais pesados. A razão disto é que as águas do Tiete/Pinheiros nunca tiveram concentrações significativas desses poluentes.
Este artigo complementa os dois anteriores: “E Por Falar em Sabesp” e “Reuso da Billings como Manancial”. Espero desvendar o que se trata de poluição e sensibilizar a todos pela recuperação dos rios Tietê e Pinheiros. Mas não só do Pinheiros, como querem alguns.

A Rede Hídrico-ambiental proposta no Plano Diretor Estratégico de São Paulo aprovado em 2002 (Rios de São Paulo: Retificação e Decadência 2)

A Rede Hídrico-ambiental proposta no Plano Diretor Estratégico de São Paulo aprovado em 2002. 

Uma das principais inovações ambientais do PDE 2002, elaborado sob minha responsabilidade técnica e coordenado pelo saudoso Urbanista Jorge Wilheim (falecido em 2014)  é a proposta da cidade estruturar-se também ao longo de sua rede hídrica-ambiental. Tem como conceito norteador o reconhecimento da importância da rede hídrica da cidade e da vegetação natural existente como um elemento estruturador da organização espacial e ambiental da cidade, com o objetivo de promover a sustentabilidade urbana, com a recuperação ambiental e a proteção das margens e planícies inundáveis e da vegetação remanescente na cidade. busca-se também incentivar a despoluição de seus rios e córregos. Os objetivos da rede hídrico-ambiental são:

  • reconhecer o sítio físico da cidade através dos seus rios e da malha de áreas verdes, no sentido de se compor um quadro de recuperação ambiental, e utilizar estes elementos como orientadores da estrutura da cidade;
  • reconciliar a cidade com o meio ambiente e seu sítio físico, para alcançar uma maior aderência do tecido urbano ao seu sítio natural;
  • promover as intervenções para o controle da drenagem urbana, recomposição da vegetação ciliar, o saneamento dos rios e a proteção dos fundos de vale, e os programas de reassentamento de populações localizadas em áreas de risco para o mesmo distrito ou subbacia.

A proposta foi retomada  no PDE 2014 como coadjuvante da proposta de verticalização e adensamento no entorno dos eixos de transporte. Embora esteja lá formalmente, perdeu muito de sua amplitude e priorização como meta de sustentabilidade urbana.

O Reconhecimento do Sítio Físico e do Ambiente

O impacto dessas medidas no ambiente urbano da cidade de São Paulo são de grande magnitude, devido à ocupação inadequada das margens e planícies aluviais e também à canalização extensiva de seus rios, uma vez que a urbanização da cidade não preservou os rios como elementos da paisagem urbana, e não observou sua função ambiental e reguladora da drenagem urbana. Hoje estes princípios estão em linha com o conceito de sustentabilidade ambiental buscado pelas maiores cidades do mundo como Toronto, Seul e tantas outras.

Áreas Verdes, Parques Lineares e Caminhos Verdes

Nessa direção foram propostos os Parques Lineares a serem gradualmente incorporados ao sistema de áreas verdes da cidade, com o objetivo de re-criar uma extensa rede hídrico-ambiental de forma a promover a ocupação adequada do entorno dos rios.  Felizmente já temos ai alguns bons exemplos como o Parque Linear das Corujas, e muitos outros bons frutos do PDE 2002, além do já existente Parque Ticoatira na Penha.

Os parques lineares são intervenções urbanísticas associadas principalmente ao entorno dos fundos de vales de rios não canalizados, com o objetivo de proteção dos cursos d’água, em contrapartida à política de canalização de córregos, por meio de uma concepção sustentavel de saneamento e recuperação ambiental. A política de canalizações de córregos e construções das grandes avenidas de fundo de vale foi o partido escolhido pela engenharia paulista desde a derrota da proposta do Engenheiro Saturnino de Brito de proteger a várzea do rio Tietê, para o Engenheiro Prestes Maia, criador do Plano Avenidas em meados de 1926 (vide o link abaixo Retificação e Decadência).

Onde os rios já estão canalizados e a situação urbana está consolidada, o PDE 2002 propôs intervenções com caminhos verdes, buscando recuperar e criar corredores verdes, objetivando a requalificação paisagística, recuperação da cobertura vegetal, arborização, redução da impermeabilização por intermédio da mobilização da população envolvida em projetos locais, de acordo com as características de cada região, e programas educacionais, em relação à questão do lixo, limpeza dos espaços públicos e da fiscalização. Essa proposição foi largamente abraçada nos Planos Regionais Estratégicos aprovados em 2004 e ainda em vigor,  onde ha diversas  propostas de Parques Lineares em todas as Subprefeituras da cidade, alguns deles já implantados. Tudo isso tem um futuro incerto uma vez que foi descolada das prioridades da política urbana da atual administração da cidade.

Essas intervenções urbanas poderão ser implementadas pelo Poder Público e pela iniciativa privada, utilizando-se para tal fim o instrumento das Áreas de Intervenção Urbana  previstos no plano diretor em 2002 e agora em 2014.

As bases dessa proposta foi dada pelo Eng Saturnino de Brito em  1926

O Engenheiro Saturnino de Brito propunha a preservação da várzea do Tietê e suas margens. O partido adotado pela engenharia paulista foi retificar o Tietê e depois o rio Pinheiros. Deu no que sabemos, enchentes e extravasamentos. Sem entrarmos na discussão da poluição desses rios e o ïnsucesso” dos projetos de despoluição desses rios iniciados a partir de 1992.

Os rios canalizados em São Paulo voltam a ocupar os antigos leitos. No PDE 2002 propusemos mudar essa lógica criando os parques lineares para proteger as margens dos rios e córregos. Ainda é possível! Em muitos casos ainda é possível..

 10603707_675680709174021_4656402275108904982_n
 A Imagem acima é de 1971, antes do projeto implantado no governo Luíza Erundina, com uma grande laje sobre o Anhangabaú e um túnel sob a travessia da Avenida São João, projetada por Jorge Wilheim.

Saturnino apontava as necessidades de preservação dos rios Tietê, Pinheiros e Guarapiranga como indispensáveis ao abastecimento de água não só na Capital como de grande parte do interior do estado. Previa, ainda, a construção de um emissário na Serra do Mar para o tratamento do esgoto em lagoas litorâneas.

O projeto de Saturnino de Brito foi descartado pela administração seguinte que preferiu implantar o “Plano de Avenidas”, elaborado pelo engenheiro – mais tarde prefeito de São Paulo, Francisco Prestes Maia, coordenador da Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê. Essa comissão cuidou ainda do aproveitamento da várzea, projetando a construção de duas extensas avenidas marginais e de 20 pontes de concreto armado, permitindo, com isso, sua ocupação por loteamentos e logradouros públicos, além da instalação de um grande terminal ferroviário que centralizaria as comunicações com a Capital”.

Em relatório publicado no ano de 1926, Saturnino previa a preservação das áreas alagadas, as chamadas “coroas”, como recurso natural para ajudar na contenção das enchentes e servir de referência dentro da paisagem do parque fluvial urbano por ele imaginado para São Paulo. O seu projeto visualizava um grande parque metropolitano que seria a faixa do leito maior, preservado como várzea ao longo do rio para as grandes vazões do Tietê na época das cheias. Na foz de cada afluente deveria ser preservada uma área para constituir um lago. Assim, se formariam dois lagos, de 3 km de extensão por 1 km de largura, com uma ilha no meio.

Retificação e Decadência está completa no link:

http://www.daee.sp.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=796%3Aretificacao-e-decadencia&catid=54%3Aparques&Itemid=53

Outro link importante sobre o tema está no documentário Entre rios, que é um excelente documentário sobre a urbanização de São Paulo, com um enfoque geográfico-histórico, permeando também questões sobre meio ambiente, política.

Uma ficção técnica sobre a crise da água

Um pequeno devaneio a propósito dos problemas que vêm afligindo o Estado de São Paulo e, principalmente, sua Região Metropolitana.

Eng. Milo Ricardo Guazzelli

Sempre que a Região Metropolitana de São Paulo é assolada por temporais, sobrevêm, nas ruas, inundações e enxurradas que causam arrastes de transeuntes, de automóveis, de lixo, danificação de moradias, quedas de árvores e consequentemente, falta de energia elétrica; nas encostas dos morros repletos de casebres, ocorrem mortes provocadas por deslizamentos que muito tem preocupado os responsáveis pela defesa civil.

Ocupações irregulares proliferam e comprometem áreas de proteção de mananciais; isso sem mencionar problemas de outra ordem como o da corrupção, do desperdício, e da má gestão da coisa pública, em nível estadual e municipal.

Ainda que o fato de o Estado de São Paulo ser um dos mais ricos da federação possa ser motivo de facilitação, tanto o governador, quanto os prefeitos: da capital e dos municípios do Estado, tem que lidar com a problemática do estabelecimento de prioridades para a alocação de recursos, quase sempre escassos, para atender as inumeráveis necessidades; nesta circunstância o ideal seria que todos os responsáveis pela res publica agissem como se estivessem em esforço de guerra, ocasião em que se põe de lado quaisquer divergências ideológicas, em favor de um bem maior.

Num momento de reflexão, em uma reunião, com  seu assessor para assuntos estratégicos, o governador cogitava sobre critérios a serem  adotados para o estabelecimento de prioridades para a tomada de decisões (1), nos âmbitos estadual e municipal.

Em face da complexidade e da premência dos problemas que entre si disputavam primazia, o governador se mostrava perplexo. Para quebrar esse impasse, seu assessor para assuntos estratégicos aconselhou-o a adotar uma postura de tempo de guerra e a imitar o que fizeram os administradores militares britânicos e americanos no início da Segunda Guerra Mundial.

Naquela ocasião, devido ao esforço de guerra havia uma necessidade urgente de alocar recursos escassos de modo efetivo às várias operações militares, bem como às atividades no âmbito de cada operação. Então, os administradores militares recrutaram  cientistas em grande número para pesquisar as operações militares.

Esses grupamentos de cientistas constituíram então os primeiros times de pesquisa operacional. Seus esforços foram de grande valor para a vitórias, na “Batalha Aérea da Grã-Bretanha”, na “Campanha nas ilhas do Pacífico”, na “Batalha do Atlântico Norte”, etc.

Terminada a II Grande Guerra, a indústria  motivada pelo manifesto sucesso da pesquisa de operações na esfera militar, gradualmente tornou-se interessada neste novo campo, à medida que o “boom” industrial seguinte a guerra acontecia  e que vinham à tona problemas causados pela crescente complexidade e especialização nas organizações.

A indústria passou a contratar, nesse tempo, especialistas que haviam trabalhado nos times de pesquisa operacional durante a guerra para atuarem como consultores. Mais tarde o setor público tomou o mesmo caminho.

A Pesquisa Operacional – explicava o assessor ao governador – nada mais é do que o uso do método científico para prover os departamentos executivos de elementos quantitativos para a tomada de decisões com respeito a operações  (complexo de atos inter-relacionados, realizados simultaneamente ou em sequência voltados à concretização de um conjunto de objetivos) sob seu controle.

Enquanto o governador ouvia com atenção a explanação de seu assessor, foi subitamente interrompido por outro assessor que veio trazer, de última hora, mais uma notícia desagradável. A de que a seca que vinha assolando vários estados brasileiros se agravara e que agora se fazia sentir, com maior força, na Capital e nos municípios do interior.

A gota d’água da iminente escassez de água, em grande escala, na Capital bastou para convencer o governador e o prefeito da Capital, que também participava da reunião, a acatarem a sugestão do assessor do governador para assuntos estratégicos. Já no dia seguinte,  de comum acordo com o prefeito, determinou que fosse providenciada com urgência uma força tarefa multidisciplinar de especialistas, a exemplo daquela montada pelos britânicos e americanos na segunda grande guerra.

Às pressas, mas com cuidado, foi selecionado um grupo de elite, entre outros, composto por matemáticos, analistas de sistemas, estatísticos, urbanistas, engenheiros civis com especialidade em recursos hídricos e em hidrologia, biólogos, geógrafos, hidro-geólogos, meteorologistas e professores universitários.

A reunião inaugural foi presidida pelo governador que fez um breve resumo da contingência provocada pela seca e logo atribuiu ao grupo, como primeira tarefa, pesquisar alternativas e encontrar soluções, de preferência de custo mínimo, que eventualmente pudessem contribuir à mitigação do problema de escassez de água de abastecimento público no Estado e especialmente na Região Metropolitana de São Paulo.

Sem maiores detalhes, o primeiro passo do grupo foi procurar se inteirar, rapidamente, das atuais condições dos sistemas que abastecem a Grande São Paulo. Para esse fim e sabendo que este assunto vinha sendo amplamente divulgado e discutido na mídia procuraram a matéria no jornal  que um dos participantes da reunião inaugural trazia consigo. Tratava-se de um exemplar da Folha de São Paulo que,  em uma de suas páginas apresentava com ilustração, um Balanço dos níveis dos reservatórios, na manhã de 31/12/2014 .

Esta matéria, continha, além dos níveis  (porcentagens em relação ao volume pleno) outras informações como: Volume atual de água em cada um dos sistemas (em bilhões de litros), População servida (em milhões) e a Média dos níveis (em %) nos últimos dez anos e há um ano.

A tabela I  resume os dados, tal como coligidos, dos seis principais sistemas que abastecem a Grande São Paulo e conforme apresentados na Folha de São Paulo.

Tabela I

  Cantareira Alto Tietê Guarapiranga Rio Grande Alto Cotia Rio Claro
Volume atual (*) 91,4 68,3 69,4 80,8 5,0 4,6
População Servida (**) 6,5 4,5 4,9 1,2 0,4 1,5
Média dos níveis dos últimos dez anos (***) 60,3 53,6 75,3 85,3 72,9 73,7
Nível em 31/12/2014 (***) 7,2 12,2 40,6 72,1 31,5 33,0

(*)       Em bilhões de litros

(**)     Em milhões, após o remanejamento dos sistemas.

(***)    Em %

Um dos integrantes do grupo, examinado os dados da Tabela I,  notou que entre todos os seis principais sistemas de abastecimento, o do Rio Grande parecia ser o mais refratário ao efeito desse extraordinário evento de seca (segundo especialistas , a maior já verificada em 84 anos), enquanto que o da Cantareira, apesar de responder pelo abastecimento de 6,5 milhões de habitantes (34,2% da população da Grande São Paulo) parecia ser o mais frágil e o mais prejudicado.

Para avaliar numericamente o comportamento desses sistemas frente a seca, um dos presentes sugeriu calcular a amplitude de variação do nível, diferença entre a média dos últimos dez anos, em primeiro de dezembro, e o nível atual (manhã de 31/12/2014).

O nível atual, devido a uma ausência prolongada de eventos chuvosos significativos, foi considerado ser uma boa base para confrontar o comportamento dos reservatórios frente a eventos críticos como o que agora se apresentava.

A Tabela II mostra a magnitude dessas amplitudes, em porcentagem.

Tabela II

Amplitude Cantareira Alto Tietê Guarapiranga Rio Grande Alto Cotia Rio Claro
(%) 53,1 41,4 34,7 13,2 43,2 40,7

O hidrogeólogo do grupo lembrou que apesar da relevância desse achado a  interpretação dos dados deveria ser feita com cuidado, uma vez que tinha sido informado de que tanto o sistema Guarapiranga quanto o do Rio Grande poderiam estar recebendo aportes de água do Reservatório Billings.

Foi neste momento que o estatístico do grupo, apesar de leigo em assuntos relacionados a recursos hídricos e agindo – como fazia o filósofo Sócrates – fazendo perguntas – questionou o grupo sobre o por que das águas do imenso reservatório Billings não terem sido, até então, consideradas no elenco dos sistemas de abastecimento. Questão embaraçosa que fez os participantes do grupo se entreolhassem!

Um dos participantes da reunião lembrou que, no governo da prefeita Luíza Erundina, um trabalho versando sobre o aproveitamento das águas da Billings para abastecimento público havia sido premiado, em segundo lugar, em concurso público sobre Recursos Hídricos instituído pela então prefeita, mas não sabia o motivo de tal trabalho não ter tido maior repercussão.

Um dos especialistas em recursos hídricos do grupo afirmou enfaticamente que a redundância de sistemas de abastecimento de água é o fator mais importante para aumentar a confiabilidade do abastecimento público.

Redundância – explicou – significa  dispor de mais do  que o número mínimo de reservatórios necessários para realizar a função de abastecimento. Um número maior de reservatórios, interligados o quanto possível, e com regimes de chuva distintos ou na melhor das hipóteses, independentes, contribuiria muito para o incremento da confiabilidade.

A interligação, quando possível – disse ele – também é de suma importância, pois mediante a interligação há possibilidade de transferência de água de um reservatório para outro; caso contrário, poderia se tornar ociosa uma estação de tratamento de água associada a um dado reservatório que, por ventura, viesse a se esvaziar por completo por escassez de chuva.

A fim de avaliar o grau da gravidade da escassez de água um engenheiro civil propôs que fosse feito um cálculo rápido, tradicionalmente conhecido jargão da comunidade científica como cálculo nas “costas de um envelope”.

Para tanto foi suposta uma situação ideal como se os seis sistemas de abastecimento estivessem interligados; os respectivos volumes foram então somados e obteve-se como volume total disponível: 3,195´1011 litros. A seguir, as populações servidas foram somadas e o total de 19 milhões apurado foi multiplicado por 250 (considerando-se um consumo “per capita” de 250 l/dia, para levar em conta desvios clandestinos e  perdas de água na adução e rede pública de distribuição), obteve-se como produto dessa multiplicação: 4,75´109 litros/dia.

Efetuando a divisão do volume de água disponível pelo total  consumo populacional obteve-se como resultado:

〖3,195×10〗^11/(4,75×〖10〗^9 )=67,2 dias

Assim, fossem mantidas inalteradas essas condições e o abastecimento de água potável por esses sistemas só seria suficiente para pouco mais de dois meses…

Cálculos análogos feitos supondo-se cada sistema independente dos demais forneceram os seguintes resultados:

Cantareira: 56,2 dias
Alto Tietê: 60,7 dias
Guarapiranga: 56,6 dias
Rio Grande 269 dias
Alto Cotia 50 dias
Rio Claro 12,3 dias

Um dos engenheiros chamou à atenção dos participantes do colóquio para a importância de um sistema de abastecimento de água, como um todo, poder se distinguir dos demais – qualificativamente – por sua flexibilidade e compatibilidade intrínsecas.

Tal como numa linha de produção em série de uma indústria – disse ele – não pode haver num sistema de abastecimento de água, o que no jargão do ambiente industrial se conhece como estrangulamentos ou gargalos.

Numa indústria o processo produtivo pode ser interrompido, por exemplo, por falta de estoque (no nosso caso, falta de água no reservatório que alimenta uma Estação de Tratamento de Água), pode ser limitado pela capacidade de um determinado componente desse processo (temos estoque suficiente de água bruta, mas há uma limitação quanto a vazão máxima – m3/s – que a Estação de Tratamento de Água instalada pode tratar ou, ainda, quanto ao nível de tratamento que esta pode imprimir, em função da qualidade da matéria-prima, água bruta que nela adentra).

O custo do tratamento é função da qualidade da matéria-prima, daí a importância de se dispor de mananciais de água protegidos e livres de todo e qualquer tipo de poluição, como outrora eram os mananciais de serra que serviam às cidades com pequeno número de habitantes

A ineficácia de controles de uso e ocupação do solo amiúde levou a ocupações indiscriminadas das áreas de drenagem dos reservatórios ou dos mananciais e à consequente poluição das águas cujo custo é incalculável.

Além do mais há que se atentar para a logística de distribuição. Mesmo que todo o processo produtivo em série esteja balanceado, o produto acabado (água tratada) pode ser impedido de chegar ao consumidor se não houver uma ampla rede de distribuição interligada e monitorada em tempo real.

A flexibilidade que mencionei – disse o engenheiro – se refere as estratégias adotadas para garantir a confiabilidade do sistema como um todo.

Por exemplo, se tenho estoque (água bruta em um reservatório) em excesso do necessário para satisfazer as necessidades de meu processo produtivo ou distributivo de água potável, esta flexibilidade intrínseca à configuração de meu sistema, garante a possibilidade de transferir esse excesso para outro reservatório (linha de produção que, em paralelo produz ou distribui o mesmo produto (água potável).

Nesse sentido, e levando-se em conta que a chuva que alimenta os reservatórios com água bruta é uma entidade aleatória, uma configuração de sistemas de abastecimento que possibilitasse equilibrar carências em alguns locais com excessos em outros, seria muito desejável.

Para finalizar gostaria de comentar um outro aspecto, qual seja, o de rendimento de um processo produtivo. Cada etapa de um processo produtivo tem um rendimento (geralmente menor do que 100%) que é avaliado pela relação entre o que sai e o que entra em cada etapa do processo.

Tratam-se, na verdade de perdas ao longo de todo o processo produtivo (por exemplo, perda de água por evaporação num reservatório mal projetado; numa adutora de água tratada ou na rede de distribuição deteriorada ou com manutenção deficiente).
O rendimento total de uma linha de produção é dado pois, pelo produto dos rendimentos de cada etapa do processo.
Em nosso caso, infelizmente, as maiores perdas são de produto acabado (água tratada perdida por vazamentos nas adutoras e nas redes de distribuição, desviada mediante ligações clandestinas ou mesmo desperdiçada em usos que admitiriam um produto de qualidade inferior como, por exemplo, no aguar de jardins e lavagem de pisos).

Na hora da pausa para o cafezinho, o novo Secretário de Recursos Hídricos, engenheiro com excelente currículo e sólida formação em Recursos Hídricos e matemática aplicada (Pesquisa Operacional) entrou na sala de reunião e cumprimentou os presentes.

Elogiou a iniciativa do governador de criar de comum acordo com o prefeito da capital um grupo multidisciplinar e permanente, formado pela fina flor de técnicos, que desde então não economizariam esforços na busca de soluções para os complexos problemas da metrópole paulistana e do Estado.

De fato, disse o secretário, aos olhos do cidadão paulistano, tudo parece estar fugindo ao controle, apesar de todas as tentativas que fazemos para não perder o controle.

Quanto ao problema da escassez de água ponderou que encontrar soluções, de curtíssimo prazo, diferentes daquelas já implementadas (economia de água, controle de perdas, diminuição de pressão na rede pública de abastecimento, cobrança de multas, remanejamentos etc.), para mitigar os efeitos danosos da seca que vem assolando o Estado e em particular a Região Metropolitana de São Paulo é praticamente impossível … a menos que São Pedro fosse convocado a participar da equipe de Pesquisa Operacional.

Finalizando sua visita surpresa, declarou que o Estado não iria omitir um plano para o atendimento de situações de emergenciais críticas como as que acontecem numa guerra quando o inimigo destrói todas utilidades (água, energia elétrica, gás, vias de transporte etc.) (2)

Referências

1 – KAUFMANN. A. (1968) –“The Science of Decision- Making”, McGRAW-HILL BOOK COMPANY., New York.
2 – Municipal Drought Management Plan Guidance Document. Prepared for: Colorado Water Conservation Board and Amec Earth & Environment.online

Do G1 – GLOBONEWS – 05/02/2015 – Cidades e Soluções: Uma visão histórica da crise da água. Há doze anos a GloboNews exibia uma série especial de reportagens que denunciava os riscos de uma crise hídrica e mostrava o desperdício de água no Brasil e as soluções que poderiam evitar uma catástrofe. “Água, o desafio do século XXI” conquistou os Prêmios Ethos e Embratel de Jornalismof em 2003. O Cidades e Soluções mostra o que mudou e quais problemas persistem.