A morte do Rio São Domingos

Nota de falecimento: Morreu hoje, 29/10/2013, aproximadamente às 17,00 horas, Rio São Domingos. Conhecido pelos antigos como Japurá. Seu corpo será velado em sua própria residência. Antes de seu último suspiro, fez pedido. Um único desejo. O de não ser enterrado. Quer permanecer ali mesmo, onde morreu a putrefazer-se por inteiro.

Meu Rio São Domingos morreu. Seus restos mortais ainda podem ser vistos cobertos por escuras águas. Japurá, seu espírito, que permanecia e lutava cheio de esperanças, se desgarrou de vez do corpo. Arrebentando o último fio de prata que restava, partiu em busca dos índios antigos que habitaram suas margens. Não chorem por ele. Não sofreu, nem sentiu dores. Era mesmo só espírito, um zumbi que vinha nas noites. Enquanto todos dormiam. Mas nos resta ainda uma última esperança. E somente uma. Uma magia, uma cura, feita por alguém que ainda corra em suas veias o sangue de antigas tribos; um pajé, uma pajelança. Teremos cada um de nós, velas nas mãos, acesas, dançarmos em suas barrancas. Pedir perdão de joelhos aos deuses da natureza e a nós mesmos, por nossa insensatez, por nossa intemperança.
Morreu nosso pobre Rio. E foi morte anunciada. Quando trocaram seu nome. Quando viramos povoado, cidade. Quando nos juntamos sobre ele, devorando suas águas. Culpa deles! Culpa nossa! Agora já não importa. Ha muerto nuestro río, sin lágrimas, sin dolor, sin sentimiento.

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2 comentários sobre “A morte do Rio São Domingos

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